WOW Lifestyle – “O senso comum é um tipo de conhecimento” por Lena Muniz

Especial, Moda

Fantasia: entre a tradição e o desejo de mudança
O senso comum é um tipo de conhecimento, basta lembrar dos conselhos da avó sobre saborear uma laranja após comer feijão. A ciência, filosofia e mitos também são formas de conhecimento. Anos atrás, cientistas comprovaram que a vitamina C auxilia na absorção do ferro. O conhecimento comum, ideias que rondam o imaginário popular, quando aplicado à moda, pode trazer uma série de confusões, algumas compreensíveis, outras nem tanto. Por Lena Muniz

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A primeira ideia que pode chegar à mente é a de que tendência é moda.
Moda é quando alcança adesão. Tendência é quando ainda está gerando curiosidade, hojeriza ou fazendo os corações baterem acelerado em frente à vitrine. E ainda temos as divisões básicas: entre as pessoas, 10% podem ser consideradas de vanguarda hoje, 55% são fashionistas (ou fashion victims) e o que resta é tradicional, não gosta de arriscar e prefere os clássicos e básicos. Visite uma grande magazine e analise.
E mais ainda, moda não é só roupa. É comportamento. Isso significa que quando você opina sobre outros assuntos, também pode encaixar sua opinião em fashion victim, vanguarda ou tradicional. Mas e a roupa? Acompanha?

Essa é uma questão pós-moderna. Hoje temos o que Stuart Hall chama de identidades fragmentadas. Se nos anos 90 tivemos o fenômeno de supermercado de estilos, hoje vivemos isso com posicionamentos políticos e sociais. Da mesma forma que uma garota pode sair na segunda vestida como nos anos 50 e na terça estar mais à vontade com um coturno, assim se passa o mesmo no campo das ideias. Da mesma forma que ela é a favor da discriminalização do aborto é a favor da pena de morte para menores de idade.

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E a roupa? Acompanha? O que podemos sentir é a falta de vontade de assumir posições por si só. Temos um número gigante de pessoas que expõem outras em redes sociais por estarem “mal vestidas”. Apontam o dedo na rua, riem. Essa falta de educação demonstra que moda virou anti-moda. Para se ter moda, é preciso que a tradição tenha um peso menor que a vontade de mudar. É a tradição que ergue o dedo em riste e diz: isso nunca! Ou os certos e errados da Gloria Kalil. Precisam que alguém diga: isso pode, isso não. Com a internet, todos se acham capazes de julgar. Mas será? Para julgar é preciso repertório. Já vi muita gente julgando sem entender de onde vem a estampa. Ou seja, o avaliador é quem acaba julgado, não o avaliado.

Se temos pessoas que não comprariam uma bota sem olhar em uma revista para ver se podem, temos outras que não se importam com a opinião alheia. Moda necessita de certo grau de fantasia para existir. Mesmo para fashionistas é difícil no Brasil, um país machista. Uma vez presenciei um grupo de homens exclamando sobre os horrores da moda. Até pintar a unha de vermelho foi mencionado. E usar sapatos com calcanhar de fora. Para estes, talvez a burca seja uma escolha melhor. Pessoas que crescem cerceadas podem ter que pedir autorização sobre o que vestir e também sobre o que pensar e mais ainda, podem ter o desejo de cercear.

Sou a favor da moda. Mas não como controle social e sim como comunicação. Sou a favor de pontes, não muros. Quando ela perde força significa que a tradição avança. Quando se passa no mundo das ideias, significa caretice, que nem sempre é inofensiva. Tivemos um boom de blogs de moda na década passada. Houve muita mudança e foi um avanço ao permitir que pessoas produzam seu conteúdo, gerou muita singularidade. Mas as grandes marcas se apoderaram dos canais, pagando para as blogueiras postarem parte das coleções das grandes casas. Uma por uma foi ficando com a mesma cara. Mesmo cabelo, mesma bolsa, mesma saia. Padronizou. E pior, a attitude “sou rycaaa” descambou não apenas em um discurso visual mas também verbal de elite. E elite é tradição. É exclusão. Uma pena. Mas estamos prestes a assistir a nova leva de blogs de moda e o discurso será de balançar as estruturas. De gênero, inclusive.

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